Crowdfunding cresce e vira opção de recurso de startups

Modelo ganha força após a pandemia e norma da CVM, que regulamentou as ‘vaquinhas online’ para investidores no Brasil   Na última década, os sites de “vaquinhas online”, como Catarse e Vakinha, popularizaram-se com intuito de reunir diferentes indivíduos para bancar projetos pessoais, como viagens dos sonhos e causas sociais. Agora, uma versão “2.0″ desse modelo ganha impulso: plataformas de “crowdfunding” (financiamento coletivo, em inglês) dedicadas a startups em busca de capital. O objetivo dessas plataformas de crowdfunding é o mesmo das tradicionais “vaquinhas”: reunir o maior número possível de pessoas para bancar ideias de empreendedores que usam tecnologia para ter escala no negócio. Em retorno, os financiadores recebem parte do investimento no longo prazo, da mesma forma que fundos de investimento tradicionais. No processo, quem cuida de tudo é a plataforma, simplificando as tarefas ao cuidar de contratos e das transações (e, claro, “mordendo” uma taxa do valor levantado). No Brasil, a plataforma Captable é uma das mais conhecidas no universo “startupeiro”. O site nasceu em julho de 2019 e, desde então, já movimentou quase R$ 100 milhões em 50 projetos, com especial aumento na procura durante a pandemia, quando o mercado de capitais dedicou as atenções ao setor de tecnologia. Agora, a firma projeta movimentar outros R$ 40 milhões somente em 2023. “A pandemia quebrou várias barreiras, principalmente no mundo financeiro. Antes, fazer um investimento em uma plataforma de crowdfunding poderia assustar essas pessoas”, explica o empresário Paulo Deitos, CEO e cofundador da Captable, propriedade da escola de inovação StartSe desde fevereiro de 2022. “Passado o susto inicial, os meses seguintes foram um sucesso para nós”, diz. Paulo Deitos é cofundador e CEO da startup de crowdfunding Captable  O cenário de baixa mundial dos juros, mais o impulso do setor de tecnologia durante o biênio pandêmico, turbinaram os investimentos de crowdfunding. Além disso, a instrução 588 da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), de julho de 2017, foi essencial para regularizar o setor, impondo limites sobre as plataformas de “investimento participativo”. A popularização de investimentos via crowdfunding no exterior também foi um empurrão para o segmento no País. Nomes como a californiana Wefunder, a israelense OurCrowd e a britânica CrowdCube ganharam mercado ao se dedicar a negócios de startups, mas é possível encontrar plataformas especializadas em diversos nichos, como empreendedoras mulheres (IFundWomen). “Aos poucos, essa cultura de diversificação de investimentos foi sendo replicada no Brasil”, diz Antonio Patrus, diretor da Bossanova, fundo brasileiro de investimentos dedicado a startups que, em agosto de 2022, comprou a plataforma de crowdfunding Platta Investimentos. Desde então, foram lançados dois projetos para captação, totalizando R$ 863 mil em volume e mais de 200 investidores. Embora o setor de investimento em crowdfunding (ou equity crowdfunding) esteja crescendo, o mundo da tecnologia navega em um momento de ventos contrários, com o mercado desacelerando em meio à alta global dos juros e ameaça de recessão econômica nos EUA. Isso significa que investidores tradicionais de startups repensam seus cheques e buscam negócios mais sustentáveis, portanto, com menos riscos. “Houve uma queda de 2021 para 2022 no valor total captado e no número de startups que captaram. Mas, ainda assim, o número de plataformas especializadas subiu de 15 para 21. Ou seja, essa queda foi um engasgo e estamos esperando por uma estabilização econômica para ter o crescimento desse tipo de investimento no Brasil”, explica Patrus. Vantagens para startups Para a maior parte das startups, o modelo de crowdfunding é uma forma de buscar não só os investidores, mas também de apresentar seus produtos para mercado e público em geral – o que ajuda a fisgar clientes já durante o processo de busca de capital. É o caso da Food to Save, que levantou R$ 1,3 milhão com 272 pessoas em maio de 2022 pela plataforma da Captable. Nascida em maio de 2021 com o intuito de combater o desperdício de alimentos, a startup levou menos de 24 horas para fechar a captação. Nesse período, o negócio de sacolas-surpresa da startup ganhou a capital paulista e se tornou um dos aplicativos mais baixados nas lojas da Apple e Google. “Em alguns casos, startups feitas para o mercado consumidor (B2C) acabam se alavancando com essa rede de investidores”, explica Cassio Spina, fundador e presidente executivo da Anjos do Brasil, organização dedicada a investimento-anjo. “Essa popularização do negócio é um benefício indireto do modelo de crowdfunding.” Outro ponto é a agilidade: no crowdfunding, as startups conseguem levantar cheques de maneira mais rápida, já que o modelo é menos burocrático que rodadas de investimento com fundos, o que pode levar até 12 meses — o que pode ser fatal para o negócio. “O tempo de um ano para uma startup é uma eternidade e isso pode ser uma oportunidade perdida”, diz Deitos, da Captable. Segundo o executivo, a janela de captação pelo modelo de crowdfunding vai de 60 a 80 dias. Encaixe no ecossistema Claro, o equity crowdfunding é uma forma de diversificar a carteira, é claro. Mas, sobretudo, pode significar uma entrada no mercado de investimento em startups, já que o modelo exige investimento mínimo de R$ 1 mil por startup investida. Para Patrus, da Bossanova, o modelo é a “democratização” do que já fazem fundos de investimento tradicionais, mas com as pessoas físicas à frente do aporte. “O crowdfunding é a primeira ferramenta de varejo para ter acesso ao universo de startups”, diz ele — na Platta, todas as startups prontas para captar são avaliadas pelos especialistas da Bossanova, que dá a “validação”. Cassio Spina concorda com a democratização. “O modelo participativo abre potencial para a existência de muitos investidores, uma vez que dá acesso a pessoas que não teriam o montante para fazer um investimento-anjo”, diz, citando os cheques de R$ 15 mil por pessoa nessa etapa. Continua após a publicidade Além disso, há a vantagem de não exigir que o investidor esteja tão próximo do negócio, papel que fica para investidores-anjo e fundos de investimento, que atuam como conselheiros para garantir o bom funcionamento do negócio da startup. “Já o investidor de crowdfunding não vai ter esse trabalho”. O que

O que a taxa Selic tem a ver com o mundo das Startups? Tudo, inclusive que elas podem ser bons ativos

(Crédito: pexels-tima-miroshnichenko)   O mercado vem acompanhando desde o segundo trimestre uma redução de capital disponível para startups. O saldo de demissões em consequência disso, estima-se, ultrapassa mais de mil pessoas – isso nos números oficiais. Na boca miúda, alguns falam que chega ao dobro. A redução ocorre principalmente em unicórnios (startups que valem mais de US$ 1 bilhão) e em reconhecidas companhias inovadoras – na lista, estão 5 Andar, Loft, LivUp, Facily, VTex, Olist, Paypal, Kavak, Favo (que fechou as operações no Brasil) entre outras. Um dos aspectos que mais influenciou a diminuição de recursos e a concentração de caixa em operações “lean” – usando um termo comum para os startupeiros – e a cobrança de resultados é que o dinheiro está mais caro. Nas palavras de Amure Pinho, da Investidores.vc, é hora de “hold your horses” (segurem os seus cavalos), ou seja, de ter gastos mais racionais, planejados e sensatos. O anúncio do Copom ao fim da reunião de 03 de agosto, de aumento da taxa de juros Selic para 13,75% e de prolongamento do horizonte de inflação para até 2024 pegou o mercado financeiro de calça curta: esperava-se que o ciclo de juros se encerrasse por agora, mas com esse novo cenário as expectativas mais otimistas são de mais um ou dois ajustes, com teto de 14% ou 14,25%. Isso significa que o céu está retrógrado para as startups? Na verdade, não. Só significa que acabou a festa do dinheiro fácil e que o modelo de que quem tem mais dinheiro vai chegar mais longe precisa ser revisto. Como manda a natureza, quem vai mais longe é quem sabe se adaptar. E, no que diz respeito a empresas que precisam entregar resultados e dar retorno aos investidores isso pode significar um grande salto de maturidade. Ao mesmo tempo, do lado dos investidores, significa olhar para os ativos de outra forma. Voltando ao conceito de Startups,  a definição mais atual diz respeito a “um grupo de pessoas à procura de um modelo de negócios repetível e escalável, trabalhando em condições de extrema incerteza”. Ora, se parte de uma tese sobre uma solução, para resolver um problema, que tem que se provar sustentável. É aí que entra a queima do dinheiro, pois a coisa acontece em tempo real: de MVP a ajustes de rota, testes de campo e de narrativas. Tudo isso em busca de um negócio que se prove lucrativo ou sustentável. Como tudo que envolve tecnologia, as mudanças são rápidas. Nos últimos 10 anos, evoluiu-se para um framework e jornada que mostra se o negócio pode dar certo ou não, ou se tem mais chances de dar certo ou não. Um dos aspectos é a escalabilidade, o outro é procurar resolver um problema com tecnologia que não seria resolvido se a tecnologia não existisse (quem imaginaria os meios de pagamento como são hoje há 20 anos atrás, quando se discutia que o Vale Refeição e Alimentação, que era em papel, passava a ser em cartão?), buscando algum ineditismo. Entre tantos outros aspectos, o modelo de negócios é o que dirá como a startup vai gerar valor, ou seja, vai transformar o que faz em dinheiro. E a repetição disso, gerar escala, tem que ter custo barato. O quão lucrativo o negócio é, no fim das contas, vem da velha planilha custos X receita.   Investimentos Alternativos Voltando para o mercado financeiro, cuja vida é de incertezas, uma carteira formada por startups poderia dar certo? Tudo leva a crer que sim. Dois casos já contados pela Investidores.vc para o Valor Pipeline mostram que o Pool liderado por Amure Pinho tem uma tese e, por mais risco que estejam dispostos a tomar pela própria natureza do modelo de startups, há certo conservadorismo na análise dos potenciais ativos. Um dos casos foi a venda da Gama Academy para a Anima Educação, que deu retorno de 21 vezes o valor investido. A aquisição da Bagy pela Locaweb resultou em 17 vezes o aporte. Num contexto onde fundos tradicionais, com gestores experientes, vem dando retornos de longuíssimo prazo, ou sofreram na pandemia, ou, ainda, têm experimentado uma fuga de capital visto a variedade de ativos disponíveis no mercado, esse tipo de investimento pode se popularizar, basta se consolidar o conceito – ora, o mercado crypto conseguiu. Na Investidores.vc, a média de alocação é de 5% do capital investido dos membros. “A gente quer transformar esse negócio numa coisa cada vez mais digital e criar modelos preditivos de análise de empresas”, afirmou Amure Pinho para o Pipeline. O Mercado Bitcoin, exchange brasileira de cryptos e tokens, já sinalizou a possibilidade de lançar uma bolsa de startups. Já existem os equity crowdfunding, regulamentados pela CVM, e que estão disponíveis em plataformas como a Bloxs ou a Captable, que fazem rodadas de investimentos e captação para ativos reais como mercado imobiliário, geração de energia e outros, e alguns ativos alternativos como é o caso da Prosolutti Capital, que antecipa recebíveis de processos judiciais e se monetiza quando o caso é encerrado, resolvendo o problema de quem precisa de um dinheiro antecipado e está esperando a solução da justiça. Ou seja, o dinheiro pode estar caro, mas, ter ideias e mostrar para os investidores que pode se obter retorno com elas ainda é um bom negócio. E, enquanto uns choram, outros vendem lenços.   Ricardo Meireles – Publisher do Empreendabilidade É consultor e estrategista de conteúdo, gestão de conhecimento e relações com stakeholders. Comunicador pela UNIFACS (2002), especializado em Estratégia e Planejamento (Miami Ad School/2017), pós-graduado em Economia (FGV/2018) e certificado em Branding (Insper/2018). Também é sócio-fundador da Pandora Comunicação.

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